A pobreza é um drama inevitável ou uma simples escolha?
A pobreza é um fenómeno cada vez mais grave nas sociedades, mesmo nas chamadas de modernas, quer em extensão quer em intensidade. Só na Europa a pobreza afecta mais de 52 milhões de pessoas. Uma em cada 7 vive de baixo da ameaça da pobreza e da exclusão social.
Como é possível que, apesar do significativo nível de evolução tecnológica e de crescimento económico de algumas sociedades, a pobreza continue a ser uma realidade persistente? É que o crescimento económico nem sempre tem conseguido alcançar benefícios para os mais pobres. O progresso e o bem estar continua a construir-se, paradoxalmente, assente em soluções económicas, prescindindo facilmente das soluções sociais, ou ainda mais grave, procura-se resolver as crises socioeconómicas com medidas exclusivamente económicas, menosprezando as medidas ou soluções de carácter social, evitando estrategicamente aceitar a dimensão ética e moral tanto das raízes dos problemas, como das suas consequências sociais. E quando se procura justificar as causas da pobreza é dramática a obsessão de procurá-las nos indivíduos e nas suas opções de vida, e não, como deveria ser, no modelo de desenvolvimento e nos mecanismos de funcionamento do sistema económico e social que orienta a vida colectiva.
Mecanismos esses que têm dado origem a uma precarização significativa das relações laborais e à transformação radical da estrutura familiar, factos que contribuem para a multiplicação de formas de pobreza tradicional e para o empobrecimento de grupos sociais, até há pouco tempo, incluídos nos estratos médios da sociedade. Esta realidade deu origem ao aparecimento de novas formas de pobreza.
A pobreza pode ser assim considerada como um fenómeno estrutural, que se alicerça em certos mecanismos estruturais estreitamente relacionados com as estruturas económicas de produção e, sobretudo, de distribuição. O drama maior dos pobres é terem de coexistir com uma sociedade de abundância, sendo as vítimas desta vergonhosa contradição: não faltam recursos, mas os que existem estão injustamente distribuídos.
Todos os dias somos confrontados com expressões bem visíveis de pobreza extrema que atravessam as sociedades contemporâneas: a exclusão social dos pobres, a sua incapacidade perante um sistema que teima em ignorá-los e a marginalizá-los; o trabalho infantil que explora selvaticamente milhões de crianças, e a falta de vontade política dos poderes públicos para aplicarem os direitos reconhecidos e assumidos; a dificuldade de acesso a uma habitação condigna, tornando perfeitamente demagógicos os apelos à constituição de relações familiares equilibradas; a impossibilidade de aquisição de conhecimentos que garanta um trabalho gratificante.
Mas a pobreza não é só consequência da negação de direitos e da indiferença da sociedade. Está também intrinsecamente relacionada com um dinamismo pessoal que origina a uma certa fragilidade dramaticamente interiorizada que contribui também para a desqualificação social.
Este dinamismo subjectivo reforça o sentimento de humilhação; potencia a dependência; inviabiliza a criatividade; desmotiva ao exercício da cidadania; leva inevitavelmente à auto marginalização e à exclusão. E o adversário maior do pobre é a falta de auto estima.
Perante as estruturas da sociedade organizada o pobre considera-se um ser aviltante, ridículo, sente vergonha de si próprio, tende a isolar-se, fica paralisado. No limite o pobre aceita resignadamente o direito de não ser, de não se afirmar como pessoa.
São, talvez, estas razões que levam as classes pobres a não possuírem qualquer poder reivindicativo e a assumirem pacificamente o estigma da culpabilização por parte da sociedade da situação em que se encontram.
Mesmo que seja inevitável a existência de pobres, não é admissível que uma grande parte da humanidade viva na miséria – ¾ da população beneficia apenas de ¼ dos bens da terra - nem que gerações sucessivas nasçam, vivam e morram na pobreza. Mesmo assim, a pobreza não deixa de continuar a ser um extraordinário desafio à nossa capacidade de construirmos uma civilização de maior justiça e solidariedade. Porque isso é possível, a Organização das Nações Unidas (que aproveito para felicitar, assim como ao seu Secretário – Geral, pela atribuição do Prémio Nobel da Paz,! decidiu instituir o dia 17 de Outubro como o Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza. Também é significativo que esta data seja assinalada imediatamente a seguir ao Dia Mundial Contra a Fome (celebrado a 16), sabendo nós que a fome continua a matar milhares de seres humanos, e ainda que ocorra num mês dedicado à pessoa idosa, tendo em conta que, pelo menos, no nosso país é uma das faixas mais pobres da população, devido sobretudo às parcas pensões que auferem.
Erradicar a pobreza é mais que um imperativo moral, é um compromisso de solidariedade humana. É uma possibilidade prática, e a longo prazo, um imperativo económico para a prosperidade económica. E porque a pobreza não é inevitável, não se deve tolerar mais. Esta é uma das peremptórias constatações registadas no Relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, do ano de 1997. Para que se possa eliminar, ou pelo menos minorar, a pobreza da face da terra, basta apostar decisivamente num novo modelo de desenvolvimento que não pode só satisfazer necessidades, mas realizar capacidades, atingindo os princípios da participação que permite a cada cidadão ser portador de dinamismo para o desenvolvimento. As nossas sociedades são representativas e têm, por isso, que ser participativas; os princípios da autonomia que torna as ajudas exteriores em factores de desenvolvimento próprio e da aceitação da diferença que leva ao conceito de solidariedade e interdependência.
A luta contra a pobreza é, no fim de contas, a realização das capacidades dos homens, superando uma concepção paternalista ou assistencialista. Erradicar a pobreza não é dar aos pobres os recursos de que eles carecem, mas sim promovê-los para que eles possam aceder pelos seus próprios meios a esses recursos.
Aos homens e mulheres de boa vontade não se pede que reneguem a sociedade em que vivem, mas que ajudem a criar uma civilização alternativa no plano dos valores e das atitudes, uma civilização nova, uma verdadeira civilização do amor, da solidariedade, da justiça, da libertação integral de “cada Homem e do Homem todo”.
por Eugénio Fonseca
(Presidente da Cáritas Diocesana de Setúbal e da Cáritas Portuguesa) - 15-10-2001
( http://www.setubalnarede.pt/content/index.php?action=articlesDetailFo&rec=9152 )